Tempos atrás coloquei no blog um artigo sobre uma série denominada Teatro dos Contos de Fadas, produzida pela atriz e produtora Shelley Duvall. Esta série, composta de apenas 26 capítulos tratava a cada episódio um conto de fadas específico. E, para dramatiza-los, sempre havia atores e atrizes conhecidos. Isso, aliado a atmosfera mística, teatral, com humor inteligente, referências diversas e fidelidade aos contos originais, tornou a série muito comentada nas décadas de 80 e 90.
No Brasil, Teatro dos Contos de Fadas foi exibido pela TV Cultura em meados de 1994 e hoje tornou-se um ícone nostálgico dos fãs e um marco do “Clássicos da TV Cultura” pelos adultos que, naquela época, ainda crianças, muito aprenderam e se divertiram com tão rica programação educativa da emissora.
Quando pequena, eu adorava assistir a Teatro dos Contos de Fadas. Recentemente, através do blog do Bruno Muller, ele teve uma nostalgia sobre a obra e logo baixei todos os capítulos, revendo-os e gravando-os.
Agradeço á minha amiga Yumiko Sousuke por ter digitado esse artigo =).
Por isso, decidi fazer o Top 7 daqueles que considero os melhores e mais marcantes episódios na minha opinião. Afinal, contos de fadas não são só para criança.
7- A Bela Adormecida
A principio, quem assistir esse episódio tendo em mente o clássico Disney, ficará surpreso com as diferenças.
No original, a bela princesa (aqui interpretada por Bernadette Peters) que possui uma belíssima voz) adormece por 100 anos. Essa maldição rogada por uma feiticeira ocasiona que todas as pessoas do reino congelam-se por encanto e se mantém adormecidos até que a princesa seja despertada pelo amor de um príncipe. E aqui o belo e valoroso príncipe é Cristopher Reeve (o eterno Supermann) no auge de sua carreira.
A história é encantadora de modo que até ignoramos determinados efeitos especiais, mas o destaque fica mesmo por conta de Cristopher Reeve. Quando o vemos, sentimos até um aperto no peito pelo futuro trágico que lhe aguardava na vida real (após cair de um cavalo, Reeve ficou tetraplégico e durante décadas sujeitou-se a testes para encontrar uma forma de reabilitação).
Talvez o ponto alto neste capítulo seja a expressão apaixonada com que ele contempla a princesa e depois a desperta. Há sentimento em seu olhar, revelando que era um bom ator.
A presença de Reeve e a certeza de que Bela Adormecida é uma das histórias que mais fazem jus ao termo Contos de Fadas, tornam esse capítulo merecedor de figurar na lista.
A adaptação de Duvall acerca deste conto de Hans Cristian Andersen tomou grandes liberdades em diálogos e atitude dos personagens. Porém, em vez de prejudicar, isso valorizou ainda mais a história, tornando-a uma das mais divertidas de toda a série.
A obra original é extremamente curta e simplória, mas com o elaborado roteiro e um gripo de atores talentosos, a história ganha personalidade e as cenas de humor são realmente engraçadas. Tom Conti é o príncipe complexado com graves problemas de existencialidade e dotado de uma linguagem de expressão ímpar. A simpática Liza Minelli é a “princesa” forasteira que se instala no quarto que outrora pertenceu ao sacaneado e divertido-bocudo Bobo da Corte.
Enquanto a rainha procura uma princesa ao nível de seu filho, o casal desenvolve um óbvio interesse. E, entre os afiados diálogos do trio Forasteira-Príncipe-Bobo, o humor é a peça que sustenta a chave do sucesso na adaptação do conto.
O príncipe desesperadamente quer fugir do casamento forçado e encontra no Bobo e na Forasteira os comparsas para ajudar a elaborar planos.
Cenários simples e sem efeitos especiais, vemos ali o puro teatro e os atores (principalmente Tom Conti) fazem questão de manter gestos exagerados – o que torna tudo mais engraçado. E há ainda os efeitos sonoros e as ironias.
Graças a adaptação criativa, o conto original foi enriquecido os personagens ganharam personalidade, e o humor bem dosado, tornou este um dos melhores capítulos da série.
A adaptação deste conto pouco conhecido, consegue juntar humos com um levíssimo terror de forma primorosa.
Tendo Peter MacNicol como o jovem incapaz de sentir qualquer medo e disposto a encarar qualquer coisa horripilante para saber a sensação, a produção conta com Cristopher Lee no papel do rei misterioso e a narração de Vincent Price.
O visual deste episódio é um dos mais dignos para a história em questão de toda a série. A produção do castelo assombrado está impecável e os efeitos especiais – bem como a maquiagem dos fantasmas esta muito boa tendo em vista a produção, nos remetemos aqueles antigos filmes de terror do cinema mudo.
Os diálogos são bem construídos e é interessante ver Cristopher Lee interpretando uma espécie de rei-feiticeiro que pode ser visto como o antagonista da história (em toda sua carreira, Lee jamais fez um papel no qual não fosse um vilão).
A história possui diversos momentos cômicos, seja com a família absurdamente supersticiosa do rapaz, seja os fantasmas do castelo (a cena em que o rapaz os convenci a jogar boliche é deveras hilária) ou as personagens estranhas, desenvolvem um humor negro na medida certa.
É um conto diferente, que conta com um elenco competente e que mantém um dos cenários mais legais da série. A falta de medo do protagonista chega a inocência e o melhor é descobrir do que ele acaba tendo medo. E um bom conto de terror, tem de contar com a presença de Lee, o ícone do antigo cinema de horror.
4- Chapeuzinho Vermelho
Aqui, Chapeuzinho (interpretada por Mary Steenburgen) é uma adolescente superprotegida pelos pais que tem sua avó (que mora no outro lado do bosque) como única amiga. Embora ela se interesse pelo jovem e bondoso ajudante de seu pai, a superproteção familiar deixa a garota cada vez mais aborrecida.
Eis então que no bosque, surge um lobo, que instala-se em um canto a fim de encontrar seu jantar. O canastrão lobo de nome Reginaldo (pff, hehe) é interpretado por ninguém menos que o ator Malcom McDowell, o eterno senhor Alex de Large (sim, o delinquente de A Laranja Mecânica). Quase que totalmente irreconhecível devido a maquiagem, ele destaca a história e seus trejeitos, e as conversas que tem consigo mesmo diante do espelho são excelentes. Malcom é um mestre em interpretação e mesmo o lobo mal-educado se torna engraçado ao se posar de bonzão e receber atitudes atravessadas.
O lobo de Malcom é sem dúvida o melhor do capítulo. Seu conto com o espelho mantém um chapéu-coco pendurado; certamente uma artimanha dos produtores a nos lembrar de Alex. Embora o lobo seja engraçado, em certos momentos ele nos faz lembrar que é o vilão da história.
A situação da adolescente chapeuzinho também é interessante e, mesmo que no fim de tudo a história tenha um final feliz, coloca em foco a lição de moral que existe no conto; ensinando as garotas a tomarem cuidado com aqueles estranhos que se aproximam galantes e com supostas boas intenções. Um conto sempre clássico.
O conto original de Hans Cristian Andersen é deveras curto e teoricamente simples; uma história de amizade típica para crianças. Porém, se foi intencional ou não, Andersen criou um enredo que pode ser trabalhado das mais diversas formas e com as mais complexas situações, tanto místicas quanto psicológicas e até pseudo-sociais. Talvez por isso A Rainha da Neve tenha se tornado uma obra diversas vezes interpretadas no teatro e no cinema. Dizem até que a Disney possui um rascunho da adaptação engavetado.
A versão de Duvall é fiel ao livro, mas enriquece a história de forma a deixa-la mais completa e interessante. Embora a amizade dos amigos Gerda e Kai seja o foco central, o destaque da obra sempre residiu na personagem do título. A Rainha da Neve é uma entidade, uma deusa, uma materialização da natureza, cercada de mistério. Sua presença fascina e intriga, pois é fria como gelo, com intenções desconhecidas é sábia e perigosa. A atriz Lee Remick, absorveu muito bem a personagem e a amizade do jovem casal soa autêntica.
A Rainha da Neve é uma história multidimensional, com perguntas não respondidas e que pode receber diversas versões (desde infantis, adultas, místicas e até sensuais) sem nunca perder o foco original. A adaptação feita pela série é justa e digna, merecendo figurar entre as melhores histórias contadas.
O flautista interpretado por Eric Idle está impecável e seus trajes vermelho-sangue se destaca no opaco cenário e demais personagens de estilo medieval. Ele por si já é uma figura surreal e misteriosa, que teve o dom de, com a estranha música de sua flauta, hipnotizar os ratos que infestavam o vilarejo e fazê-los afogarem-se no mar.
Como se não bastasse toda a sombriedade da obra, a maioria das conversas são feitas rimando. É algo surreal.
Mas, quando chega-se ao ápice onde o flautista – enganado pelos políticos da cidade se recusa a lhe pagar o prometido por se livrar os ratos – decide hipnotizar todas as crianças da cidade com sua música e leva-las para além das montanhas, deixando os adultos imobilizados é que começamos a nos preocupar.
Principalmente quando seguindo o conto original, o flautista leva as crianças para um estranho portal em uma caverna, que logo desaparece. E como já foi dito anteriormente, nada de final feliz.
O que acontecer, para onde as crianças realmente foram levadas e quem ou o quê era o flautista, é um mistério. O flautista, é um mistério. O Flautista de Hamelin realmente não é um conto de fadas e por isso mesmo a história é tão interessante.
1- A Pequena Sereia
A Pequena Sereia foi escrito por Hans Cristian Andersen e, embora as ideias teoricamente seja a mesma, a versão da Disney é quase que totalmente diferente o final. Assim, a versão de Duvall pode ter surpreendido e confundido os fãs por retratar a obra original.
A trilha sonora que pega os arranjos orquestrais do clássico Em Busca do Vale Encantado é excelente e sentimental, sempre colocada nos momentos certos. Aliás, esse conto é o único da série que tem uma “trilha sonora”.
A encantadora sereia é interpretada pela bela Pam Dawber, cujo amor platônico e infelizmente não-correspondido pelo príncipe a faz arriscar tudo e sofrer para poder ficar com ele e fazê-lo se apaixonar. Porém, o príncipe já possui uma noiva que ama e, como se não bastasse, é uma pessoa boa.
A melancolia e tristeza da sereia Pérola faz com que torçamos por ela conquistar o amado e é cruel contatar que todo o sacrifício dela foi em vão.
O lado belo da história é ver a pureza do amor verdadeiro da sereia, que se recusa a destruir o príncipe mesmo que isso pudesse lhe fazer voltar a ser como era antes de ter vendido sua voz e vida marinha em troca de pernas que lhe machucavam apenas para conseguir estar ao lado do príncipe.
Embora fosse a sereia que merecesse verdadeiramente o amor do príncipe, isso não acontece. Mas o amor dela o impede de ser egoísta e a bondade o faz ganhar algo que sua espécie não tem: uma alma.
A Pequena Sereia é um conto belamente triste, cuja adaptação tocante merece estar em primeiro lugar dessa lista.
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